Eu consigo fazer um galpão na gráfica?
Ensaio. Começando a esboçar os trabalhos e os possíveis espaços para a próxima exposição. E achei uma boa, separar um tempo para exercitar a escrita do processo, e estrear o “blog” do site novo.
(figurinha da Carie Bradshaw fumando na frente no notebook).
Tenho me questionado de alguns pontos centrais que me identifico e digo ser. Artista. Pesquisador. Fudido.
Alguns acontecimento acarretaram em ter recalcular a rota, resumindo não consegui renovar a minha bolsa de pesquisa, que era a principal fonte de renda, a única. Até aí, nada bem, mas a justificativa para tal foi “baixo desempenho acadêmico”. E ter que digerir isso é que está sendo tenebroso. Voltar a fazer free de garçom e trabalhar meio turno na gráfica eu dou um jeito. Mas a frustação do carimbo acadêmico de baixo desempenho acadêmico é o que ta corroendo.
( não foi baixo desempenho acadêmico, foi um atraso de 5min em uma disciplina no primeiro semestre, anterior ao recebimento da bolsa. )
Disse tudo isso para demarcar o estado que tenho digerido e gerido minha rotina e meu tempo. Tenho uma exposição para realizar. Quais trabalhos vou demandar energia e dinheiro para fazer?
Faz tempo que tenho percebido que trabalhar em uma gráfica contaminou de um jeito bem gostosinho minha poética. Produzir, cortar, imprimir, organizar produtos dos outros, me coloca em contato com muitas possibilidades: calendários com fotos de cavalos para uma agropecuária; canecas de aniversário para a amiga formada em enfermagem; cardápio plastificado da lancheria nova; convite de casamento estilo la Canva; as placas de pvc que são um tesão de adesivar; as rifas do centro espírita; furar e encadernar agendas da profissional de estética; as centenas de faixa em lona das imobiliárias para alugar ou vender; colocar a máscara nos adesivos de recorte para o cristão/evangélico colar “o senhor é meu pastor…” atrás da janela do carro. Tem muito produto para além das impressões de papel e adesivo.
Em paralelo a isso, uma frase que uma professora comentou numa conversa de corredor sobre arte ou sobre meu trabalho, não lembro.
“visualidade não basta”
Saberia questionar e trazer uma discussão partindo da imagem, mas em partes concordo.
Não quero um trabalho que se finde na visualidade. Então para além dos belos designs do canva que vejo na gráfica, tento entender o porquê dos produtos.
o porquê de uma agenda para uma profissional da estética? função da agenda, anotar e marcar coisas.
o porquê de um calendário de cavalos? função de calendário, ver datas.
o porquê de um convite de casamento em tons pastéis e floral? convidar.
o porquê de uma faixa de aluga-se/vende-se? anunciar alugar ou vender.
o porquê de um adesivo de um versículo colado em um carro? dizer que o carro ta ungido.
Mãs daí penso.
Existe agendas, calendário, convites, faixas e adesivos prontos. Quando essas pessoas fazem esses mesmos produtos personalizados, elas demarcam algo. É minha agenda, é meu calendário, é o convite do meu casamento, é a faixa da minha empresa, é o meu carro blessed.
Personalizar aproxima.
Então acho que pode ser um ótimo gancho para pensar a próxima exposição.
Eu pesquiso no Tradicionalismo Gaúcho incoerências para falar, isso daí não é meu, nem me ofereceram.
Que tal começar a personalizar um possível tradicionalismo meu. ( me incomoda pronome de posse )
A exposição “não tem no maps a tapera” foi esta primeira tentativa através das placas de localizar onde estaria esse “meu tradicionalismo” que chamo ou chamei muito de Tapera Neon, ou galpão.
Sinalização temporária foram trabalhos no qual decidi não trabalhar pelo viés da utopia, até porque não é utópico. É ficção, jeitinhos de acessar aquilo que sempre esteve ali, um desvio que muda o caminho, o tempo, a duração e quem acessa. Viciado em Ranciére.
Então para esta exposição, começo a montar o galpão/tapera. Na gráfica mesmo.